(foto de minha autoria, tirada no Campo de Santana, Rio de Janeiro)
Dedico esse post àquele jornalista da Folha, com sobrenome de bicho fofinho, que afirmou sofrer certas falhas de memória.
Conforme já mencionei aqui, há muitos anos frequento a Biblioteca Nacional, que além de abrigar a maior variedade de livros do país, possui uma coleção microfilmada de todos os jornais brasileiros, de todos os tempos. As épocas que mais me interessam pesquisar, naturalmente, são aquelas de grande comoção nacional e por isso tenho fuçado sobretudo os meses de agosto de 1954, e março e abril de 1964.
Esta semana, passei uma tarde pesquisando as edições de março e abril de 1964 do jornal Folha de São Paulo, e topei com editoriais e notícias que, senão me causaram nenhuma surpresa, deram-me algumas peças para o quebra-cabeças que venho montando há tempos, tentando compreender um pouco mais a história contemporânea brasileira.
Por que houve um golpe militar no Brasil? Esta é uma questão que não pode, definitivamente, ser respondida com um dar de ombros. Quando se fala na importância da educação, costuma se omitir que educação não é ensinar aos brasileiros quem foi Pedro Álvares Cabral. Por trás, e acima, de qualquer boa vontade em melhorar o quadro educacional deve haver uma incessante produção de conhecimento. Em outros termos, se queremos ensinar história aos brasileiros, devemos discutir qual a história que iremos lhes contar. Não se trata aqui de "editar" os fatos, conforme a ridícula pretensão do jornalismo neocon tupi, nas palavras do sacerdote ético da mídia, Roberto Romano, que agora resolveu estender seus pitacos ulta-previsíveis para a esfera linguística-midiática. Em vez de entrevistarem Nilson Lage, a maior sumidade em jornalismo do Brasil, os lacaios das famiglias perguntam ao Roberto Romano, "especialista em ética", sua opinião sobre o blog da Petrobrás. Bah! Não se trata, ia dizendo, de "editar" os fatos, e sim de pensar e repensar a história brasileira, à luz de tudo que sabemos e entendemos hoje. Um fato novo impõe a revisão de todo sistema, o que torna a ciência histórica tão difícil e tão emocionante.
No Brasil, existe a mania, um tanto tola e arrogante, de se distribuir títulos de ignorância e "semi-analfabetismo" a torto e direito, mas parece que poucos se dão conta do fato de que, se a ignorância é um defeito, este é um defeito que não se restringe aos conhecimentos sobre a língua portuguesa, mas também à história de seu próprio país.
Devemos urgentemente, portanto, incluir nos acontecimentos de 1964 um ator político fundamental. Não se trata de culpar a mídia por tudo. Ao contrário, trata-se de lhe dar o status e o prestígio - para o bem e para o mal - que ela merece. Ela foi, afinal, um dos atores mais importantes da cena política que se descortinava. Não se pode representar Othelo sem o personagem Iago. Os jornais eram tão cruciais nos anos 60 porque não havia ainda um telejornalismo organizado ou relevante, as rádios eram fragmentadas, e não existia internet. A imprensa escrita constituía a grande, e única, tribuna política do país. Quer dizer, a imprensa não era apenas uma tribuna; era um Tribuno; os jornais brasileiros, como aliás seus congêneres em todo o mundo democrático ocidental, tinham opinião própria, muita opinião, sobre os fatos políticos.
Até aí tudo bem. Ocorre que em março de 1964, os jornais brasileiros - refiro-me aqui a todos, muito parecidos em seu conservadorismo golpista, mas tenha em mente a Folha, sobre a qual irei discorrer adiante com mais detalhes - deixaram de ser meros agentes de opinião (conservadora, católica, colonial) para se tornarem um dos pilares mais importantes do maior e mais terrível crime histórico jamais perpetrado contra o espírito de união nacional, contra a justiça, contra a democracia, contra a paz, e contra todos os valores importantes por trás de uma nação como o Brasil.
Para começar, não éramos uma ditadura como a que existia em Cuba, com Fulgêncio Batista; nem uma autocracia medieval, como havia na Rússia. O Brasil possuía, em 1964, uma das democracias mais avançadas do mundo; e, aos trancos e barrancos, vinha se desenvolvendo a um ritmo invejável, a nível cultural, acadêmico, industrial, artístico, educacional, econômico, político. O Brasil havia produzido Guimarães Rosa, Glauber Rocha e Chico Buarque, apenas para citar três símbolos de uma cultura da qual parecia jorrar tanto entusiasmo e genialidade.
A academia brasileira vinha experimentando, por sua vez, um grande momento. O estereótipo do estudante sessentista, visto como baderneiro revolucionário e maconheiro, é tremendamente injusto e preconceituoso. Eram jovens profundamente estudiosos e politizados. O "engajamento" político dos anos 60 era autêntico, generoso, verdadeiro, criativo. O jovem que hoje participa de "micaretas", lá atrás, estudava Marcuse e Nietszche.
Quando abordamos o golpe militar, portanto, esse ato de barbárie que violentou um momento histórico tão importante, tão delicadamente belo e poderoso, é preciso analisar, atentamente, esse contexto.
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Então lá estava eu, numa tarde fria de junho de 2009, espiando o microfilme de edições antigas da Folha. Em março de 1964, o jornal dos Frias divulga uma notinha cultural interessante: jovens roqueiros ingleses são a nova sensação na Inglaterra; os Rolling Stones, com idades de 19 a 22 anos, parecem substituir os Beatles nas paradas de sucesso.
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Desde o final da II Guerra, quando a guerra fria ganha força no mundo, as notícias internacionais que chegam às redações brasileiras são publicadas com todos os filtros ideológicos impostos por Washington. O golpe de Estado contra Árbenz, na Guatemala, em 1954, por exemplo, assume ares de legalidade. A mesma coisa vale para a derrubada do regime democrático em Cuba, por Fulgêncio Batista.
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A leitura da Folha de 1964 esclareceu um ponto para mim. As três personagens políticas mais importantes para a preparação e realização do golpe de Estado foram os governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais: respectivamente, Ademar de Barros, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. Ademar entrava com dinheiro, Lacerda com um discurso incendiário e terrorista, Magalhães com os tanques de guerra.
A Folha reproduzia o terrorismo lacerdiano com uma placidez cúmplice apenas comparável à tolerância e pusilanimidade com que a Europa deixou Hitler crescer e rearmar a Alemanha. Infelizmente, os microfilmes da Biblioteca Nacional não estão digitalizados, o que permitiria uma reprodução fácil na internet. Mas eu fiz algumas anotações. O mais impressionante, de longe, é o discurso de Carlos Lacerda, muito parecido ao terrorismo esquizóide e delirante de um Olavo de Carvalho.
Lendo a Folha (eu já li também o Globo e o Correio da Manhã de 1964), pode-se constatar que o plano dos golpistas consistia nos seguintes pontos:
1) Criar uma imagem a mais negativa possível do governo, associando-o ao comunismo e à ilegalidade
2) Causar a impressão de perigo imediato para as instituições.
3) Criar a impressão de que eles, a oposição conservadora, tinham imenso apoio popular.
As eleições presidenciais aconteceriam em 1965. Goulart e todos os seus aliados não faziam a menor menção de mudar isso. Nem lhes interessariam mudar. Lacerda, no entanto, lançava diariamente a suspeita de que as eleições não ocorreriam e que Goulart tentaria se "perpetuar no poder". Lacerda pinta uma imagem cada vez mais diabólica do presidente Goulart, como se ele fosse um perigossíssimo comunista russo infiltrado no governo para derrubar a democracia brasileira. Aliás, quando o golpe ocorre, os jornais divulgam a seguinte afirmação de Lacerda: "A ditadura russa foi derrubada!" Podem rir.
Vejam o que Lacerda afirmava que Goulart faria nos próximos meses:
1) Substituiria a Constituição por outra.
2) Dissolveria o Congresso Nacional.
3) Faria plesbicitos autoritários [essa é boa, héin?! Plebiscitos autoritários! Podiam ter ensinado essa ao Stálin, héin?]
4) Associação crescente entre comunismo e negocismo [!!!!!!!!!!! Não me perguntem o que é isso!]
5) A desmoralização das forças armadas.
6) Transformação do presidente em caudilho. Não haveria mais eleições.
7) Destruição da livre-iniciativa e sua substituição por um dirigismo incompetente e desvairado, logo substituído pelo controle totalitário de todas as atividades nacionais, inclusive o controle das consciências.
Esse era o Lacerda, "o bom administrador". Um cara "honesto" pra xuxu. A imprensa publicou esses tópicos sem permitir nenhuma resposta "do outro lado", e, o pior, sem criticá-los; ao contrário, chancelava-os em seus editoriais, conforme se verá logo a seguir. Detalhe: o governo vinha negando veementemente esse tipo de acusação. Mas como negar "boatos" sem base nenhuma na realidade? Outro detalhe: Lacerda, nem ninguém, apresenta qualquer prova de suas acusações insanas. Mas pra que provas, quando se tem apoio midiático, nénão?
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Pois bem, faltava apagar a impressão de que a oposição ao governo Goulart se restringia a uma elite retrógrada e diminuta. Começam os preparativos para a MARCHA DA FAMÍLIA COM DEUS PELA LIBERDADE. Não podiam escolher nome mais fascista, não? Essa marcha é fundamental para a deflagração do golpe militar, porque demonstra, junto à cúpula militar e política que o organizava, que havia uma quantidade considerável de gente, ao menos no Rio e São Paulo, chancelando o discurso midiático-conservador.
Os jornais passam a divulgar, diariamente, em letras garrafais, manchetes como: AUMENTAM O NÚMERO DE ADESÕES À MARCHA EM DEFESA DA CONSTITUIÇÃO; ou MAIS DE 300 MUNICÍPIOS DE SÃO PAULO ENVIARÃO ÔNIBUS; e tantas outras.
A Folha divulgava ainda um comunicado da FIESP, orientando seus filiados a que liberassem seus empregados durante a tarde do dia da manifestação, e mesmo que fechassem os estabelecimentos.
Depois disso tudo, ocorre a manifestação, com a presença de meio milhão de pessoas (segundo os jornais, o que me faz pensar na metade disso), e daí edições inteiras dos jornais são dedicadas ao evento. Os editorais repetem sempre a mesma ladainha: de que havia sido um evento "espontâneo". Sim, espontâneo... Os patrões "orientando" a presença de seus empregados na passeata, os jornais convocando a população... Tão espontâneo...
"Aquele mar humano formou-se espontaneamente, pelo natural".
"E formou-se de súbito, quase por milagre, ao simples apelo de um grupo de mulheres e organizações femininas".
"Nada de especial, nenhuma preparação psicológica."
Enquanto isso, Lacerda afirmava, nas mesmas edições, que: "O sr.João Goulart é um fascista a serviço do comunismo", e "teremos guerra civil no Brasil a continuar a conspiração dos porões do palácio do presidente".
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Por curiosidade, confiram um dos gritos lançados pela multidão, na tal Marcha da Liberdade, segundo reportagem da Folha:
"Basta! Basta! Basta!"
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E o jornal, não contente com uma manifestação tão deliciosamente "espontânea", também incitava as Forças Armadas para que restabelecessem a ordem. Publicavam isso com todas as letras.
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Trecho do editorial da Folha do dia 20 de março de 1964:
"Nossa opinião
O povo mesmo, não um ajuntamento suspeito e longamente preparado, reuniu-se espontaneamente, nas ruas desta cidade para exprimir seu sentimento e sua vontade. Foi uma dura lição para aqueles que necessitam de demorada propaganda, manipulação de cúpulas e tremendos dispositivos de força para concentrar massas humanas."
A quem o editorial se referia? Claro! Aos trabalhadores e estudantes, cujas manifestações, segundo a Folha, eram "longamente preparadas" e necessitavam obrigar as pessoas a participarem delas através de "tremendos dispositivos de força".
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A Folha noticia que Lacerda se reúne, a portas fechadas, com Ademar de Barros e Magalhães Pinto. Eles realizam "conversas sigilosas", diz o jornal no dia 26 de março. Uma semana depois, ocorrerá o golpe.
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Por fim, uma pérola editorial lida uma semana antes do golpe militar:
"A última moda, entre os que refletem o pensamento do governo federal, é apregoar a necessidade de 'democratização da imprensa'".
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Vale lembrar que os estudantes organizados, ou seja, a UNE, que era muito forte na época, assim como os sindicatos, apoiavam o governo Goulart. Realizavam manifestações constantes de apoio ao presidente. A mesma coisa vale para diversas categorias militares de baixa patente, que se sentiam exploradas e humilhadas pela alta oficialidade. Ou seja, quando Miriam Leitão escreveu, em meados de 2006 ou 2007, que a UNE era "rebelde a favor", tentando desmoralizar a entidade por apoiar o governo Lula, ela distorceu a história. A UNE foi contra a ditadura, claro, e pagou caro por isso; o mais importante a ser lembrado, porém, é que a UNE alinhava-se ao governo Goulart, porque tinha visão estratégica de que, diante da alternativa udenista reacionária, ele representava um tremendo progresso.
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Acontece o golpe. No dia seguinte, a Folha de São Paulo reproduz mensagem do governador Ademar de Barros: "o governador Ademar de Barros qualificou de ex-presidente da República ao sr. João Goulart".
Muitas outras "mensagens" de Ademar de Barros são obedientemente reproduzidas pela Folha. O tal criticismo político da Folha, pelo jeito, nunca ocorreu junto a seus governadores.
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Editorial do dia 2 de abril de 1964, dia seguinte ao golpe:
"Não houve rebelião contra as leis, mas uma tomada de posição em favor da lei. Assim se deve enxergar o movimento que empolgou o país (...)"
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No dia seguinte, 3 de abril, novo editorial justificando o golpe:
"O Brasil continua
Voltou a nação, felizmente, ao regime de plena legalidade que se achava praticamente suprimida nos últimos tempos do governo do ex-presidente João Goulart".
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No mesmo dia (03 de abril), o DOPS, uma espécie de BOPE de SP, invade a faculdade de filosofia da USP e dissolve uma reunião de estudantes na base da porrada. Um fotógrafo da Folha presente (segundo nota da própria Folha) levou uma cacetada na nuca e foi preso com os estudantes. Foi liberado horas depois, sem os filmes, e com alguns ferimentos na cabeça.
Mesmo com seu próprio repórter espancado pela polícia, a Folha não faz nenhum comentário crítico.
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Dessa vocês vão gostar. Capa da Folha de São Paulo do dia 3 de abril de 1964:
"Petrobrás sem nenhum comunista: 'limpeza'".
O militar indicado para comandar a Petrobrás informa aos jornais que irá realizar uma "limpeza" ideológica na estatal, demitindo sumariamente qualquer pessoa com suspeita de ligações com os "comunistas".
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Os EUA felicitam o novo governo. Um secretário de Estado dos EUA anuncia que "será aumentada a ajuda financeira ao Brasil".
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A Fiesp comunica, pelo jornal, suas congratulações aos vitoriosos do golpe. A Folha noticia que o Brasil terá novas eleições em uma semana; e que essas eleições serão "indiretas", e que haverá um "candidato único", o Sr.Castello Branco, festejado inclusive pelo jornal como excelente nome para chefiar o Brasil. Quanta democracia! Quanta legalidade!
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Chefes militares declaravam aos jornais (que haviam se tornados verdadeiros boletins de guerra pró-ditadura, com gráficos e tudo) que estavam preparados para enfrentar qualquer reação ao golpe. Isso me fez pensar que o Brasil escapou - se é que tem sentido falar em escapar, neste caso - de uma guerra civil que poderia destruir o Brasil, matando centenas de milhares, talvez milhões de pessoas. Por alguma razão, felizmente (e aqui novamente, temos uma palavra um tanto dúbia), isso foi evitado.
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Mudando de assunto.
A culpada pelos problemas de Simonal não foi a esquerda, e sim a ditadura militar, que fazia todos desconfiarem de todos, e criou um clima sufocante e totalitário no país, não dando espaço para nenhum tipo de "concessão" ou "tolerância" política por parte da intelectualidade e da classe artística. A culpa, repito, recai sobre a ditadura, e sobre os órgãos de imprensa que tanto a ajudaram a preparar o golpe militar que derrubou um presidente eleito democraticamente, substituindo-o por generais corruptos, reacionários e incompetentes.
# Escrito por Miguel do Rosário
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