Protagonismo Social da Psicologia na Defesa dos Direitos Humanos
Cecília Maria Bouças Coimbra; Maria de Nazaré Tavares Zenaide
Conselho Regional de Psicologia – 13ª Região... permitiu que iria ter uma eleição do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, e ela fez a análise de uma casa-abrigo, aqui em João Pessoa. Nessa monografi a ela constatou abuso e violência, por parte daqueles que eram os gestores da instituição. Foi graças à pesquisa dessa menina, que fi zemos uma queixa e conseguimos que o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente não fosse alguém que tivesse uma mentalidade punitiva e uma prática de abuso e violência.
Vejam só como a pesquisa e a intervenção podem ser instrumentos fundamentais no alicerce dos conselhos de defesa. Foi através do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos que pudemos ter essa intervenção.
Queriam desqualificar o trabalho dela, como se fosse de uma militante do Partido dos Trabalhadores. Era uma denúncia. Tentaram desqualificar o trabalho.
Coloco como é importante, nas universidades, fortalecermos os setores de pesquisa e estudos.
Quando há um setor de estudos e pesquisas sobre criança e adolescente na universidade e nesse setor há tanto a pesquisa como a extensão universitária, isso faz com que não se descole a questão da investigação da questão da intervenção. É fundamentalque nós, da Psicologia, estejamos fortalecendo essa questão. É muito importante que esses setores não sejam de um departamento, mas que sejam setores que envolvem serviço social e Psicologia. Vemos a ausência dos nossos psicólogos nesses espaços. Eles precisariam estar olhando para a intervenção sobre a questão do adolescente, de modo que a pesquisa e a extensão estejam de fato transformando mentalidades.
Nesse caso a pesquisa teve o impacto na questão. Foi fundamental. A nossa preocupação não é de transformar em especialismo, mas que o olhar possa ser feito vinculando os outros saberes. É muito importante, por exemplo, uma experiência que temos aqui. Na Comissão de Direitos Humanos, fazemos um trabalho de educação e de formação, com vários olhares sobre a questão: fi lósofo, professor de Direito, pesquisador da área de Sociologia, Antropologia, Psicologia, Assistência Social. Isso faz com que possamos ver sobre vários ângulos da questão e sobre várias implicações da realidade.
É muito importante com vamos pensar essa relação com a academia. Na questão das políticas públicas, temos que pensar na formação dos novos profi ssionais. Questiono como nós, nos conselhos profi ssionais de Psicologia, podemos também estar nos articulando com a academia e com os órgãos da área de defesa, para pensarmos na formação do profi ssional que já está no campo das políticas públicas, mas que não teve essa formação de direitos humanos.
Há profi ssionais, que estão no sistema penitenciário, nas delegacias da mulheres e da criança e do adolescente e em programas de segurança pública, que não passaram por esse processo de refl exão crítica. Eles vêm da mentalidade do senso comum, de que direitos humanos é defesa de bandido, de que direitos humanos não têm a ver comigo, estão no outro e que nenhum de nós, se fi zermos uma retrospectiva de vida, tem implicações com a questão dos direitos humanos.
Tem muito a ver com a vida de cada um! Isso não é uma coisa estrangeira: é uma coisa que faz parte da gente.Temos que pensar, sim, na formação desse profissional da Psicologia que já está fora da universidade. Ele já está nas instituições e faz intervenção nas políticas públicas. De repente, eles vêm com a questão da justiça terapêutica. Na cabeça deles, estão preparados e não precisam de reflexão crítica. Vêm, também, as questões da militarização e da segurança pública.
Essas pessoas estão despreparadas para terem uma postura crítica diante disso daí. É mais fácil que entrem no jogo da tentativa de justificar a visão penalista da atuação profissional.
Quando nos aproximamos dos psicólogos que atuam no sistema penitenciário, por exemplo, vemos que a prática deles está reduzida ao laudo. Esse é um problema sério. A visão jurídica estreitou tanto a atuação do psicólogo que ele se limita ao laudo. Ele não tem mais tempo de fazer outra coisa, porque tem tempo limitado e prazos defi- nidos. Isso faz com que fique estritamente nessa questão.
Aconteceu um caso que gosto de exemplifi car. Houve uma rebelião no presídio feminino de João Pessoa. A agente penitenciária começou a reduzir o tempo do banho de sol e modificações até ao ponto de tomar a sala dos técnicos. Tomou a sala e disse que a sala passaria a ser dos agentes penitenciários.
Quando os técnicos chegaram ao presídio, a sala não era mais deles. Todo mundo estava assistindo, sem fazer nada. Um dia, as presas resolvem fazer alguma coisa. Quando elas berraram, gritaram e tomaram o policial como refém no momento da rebelião, disseram que estavam utilizando o policial porque precisavam falar do que estava acontecendo lá. Todo mundo estava vendo, mas ninguém estava reagindo. Todo mundo estava ficando igual. Não estamos presos nas celas, mas estamos aprisionados. Nossas mentes, nossas emoções, nossos afetos estão todos aprisionados. Estamos como que adormecidos. Alguém tinha que reagir, e as presas reagiram. Nossa cela está acinzentada e estamos adormecidos. Alguém tinha que reagir, e as presas reagiram.
O que acontece depois da rebelião? Apenas aumentou a pena das apenadas. Ninguém questionou a responsabilidade dos profissionais, dos gestores, aética dos psicólogos, dos defensores públicos, dos assistentes sociais. Nossa ética ficou toda guardada nos livros, na academia.
Isso aumentou a pena das meninas. E teve mais: reinauguraram um presídio em Campina Grande, para onde as levaram. Colocaram lá uma profi ssional para dirigi-las e, um ou dois meses depois, foi constatado que estava havendo abuso e violência.
Vejam só como a pesquisa e a intervenção podem ser instrumentos fundamentais no alicerce dos conselhos de defesa. Foi através do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos que pudemos ter essa intervenção.
Queriam desqualificar o trabalho dela, como se fosse de uma militante do Partido dos Trabalhadores. Era uma denúncia. Tentaram desqualificar o trabalho.
Coloco como é importante, nas universidades, fortalecermos os setores de pesquisa e estudos.
Quando há um setor de estudos e pesquisas sobre criança e adolescente na universidade e nesse setor há tanto a pesquisa como a extensão universitária, isso faz com que não se descole a questão da investigação da questão da intervenção. É fundamentalque nós, da Psicologia, estejamos fortalecendo essa questão. É muito importante que esses setores não sejam de um departamento, mas que sejam setores que envolvem serviço social e Psicologia. Vemos a ausência dos nossos psicólogos nesses espaços. Eles precisariam estar olhando para a intervenção sobre a questão do adolescente, de modo que a pesquisa e a extensão estejam de fato transformando mentalidades.
Nesse caso a pesquisa teve o impacto na questão. Foi fundamental. A nossa preocupação não é de transformar em especialismo, mas que o olhar possa ser feito vinculando os outros saberes. É muito importante, por exemplo, uma experiência que temos aqui. Na Comissão de Direitos Humanos, fazemos um trabalho de educação e de formação, com vários olhares sobre a questão: fi lósofo, professor de Direito, pesquisador da área de Sociologia, Antropologia, Psicologia, Assistência Social. Isso faz com que possamos ver sobre vários ângulos da questão e sobre várias implicações da realidade.
É muito importante com vamos pensar essa relação com a academia. Na questão das políticas públicas, temos que pensar na formação dos novos profi ssionais. Questiono como nós, nos conselhos profi ssionais de Psicologia, podemos também estar nos articulando com a academia e com os órgãos da área de defesa, para pensarmos na formação do profi ssional que já está no campo das políticas públicas, mas que não teve essa formação de direitos humanos.
Há profi ssionais, que estão no sistema penitenciário, nas delegacias da mulheres e da criança e do adolescente e em programas de segurança pública, que não passaram por esse processo de refl exão crítica. Eles vêm da mentalidade do senso comum, de que direitos humanos é defesa de bandido, de que direitos humanos não têm a ver comigo, estão no outro e que nenhum de nós, se fi zermos uma retrospectiva de vida, tem implicações com a questão dos direitos humanos.
Tem muito a ver com a vida de cada um! Isso não é uma coisa estrangeira: é uma coisa que faz parte da gente.Temos que pensar, sim, na formação desse profissional da Psicologia que já está fora da universidade. Ele já está nas instituições e faz intervenção nas políticas públicas. De repente, eles vêm com a questão da justiça terapêutica. Na cabeça deles, estão preparados e não precisam de reflexão crítica. Vêm, também, as questões da militarização e da segurança pública.
Essas pessoas estão despreparadas para terem uma postura crítica diante disso daí. É mais fácil que entrem no jogo da tentativa de justificar a visão penalista da atuação profissional.
Quando nos aproximamos dos psicólogos que atuam no sistema penitenciário, por exemplo, vemos que a prática deles está reduzida ao laudo. Esse é um problema sério. A visão jurídica estreitou tanto a atuação do psicólogo que ele se limita ao laudo. Ele não tem mais tempo de fazer outra coisa, porque tem tempo limitado e prazos defi- nidos. Isso faz com que fique estritamente nessa questão.
Aconteceu um caso que gosto de exemplifi car. Houve uma rebelião no presídio feminino de João Pessoa. A agente penitenciária começou a reduzir o tempo do banho de sol e modificações até ao ponto de tomar a sala dos técnicos. Tomou a sala e disse que a sala passaria a ser dos agentes penitenciários.
Quando os técnicos chegaram ao presídio, a sala não era mais deles. Todo mundo estava assistindo, sem fazer nada. Um dia, as presas resolvem fazer alguma coisa. Quando elas berraram, gritaram e tomaram o policial como refém no momento da rebelião, disseram que estavam utilizando o policial porque precisavam falar do que estava acontecendo lá. Todo mundo estava vendo, mas ninguém estava reagindo. Todo mundo estava ficando igual. Não estamos presos nas celas, mas estamos aprisionados. Nossas mentes, nossas emoções, nossos afetos estão todos aprisionados. Estamos como que adormecidos. Alguém tinha que reagir, e as presas reagiram. Nossa cela está acinzentada e estamos adormecidos. Alguém tinha que reagir, e as presas reagiram.
O que acontece depois da rebelião? Apenas aumentou a pena das apenadas. Ninguém questionou a responsabilidade dos profissionais, dos gestores, aética dos psicólogos, dos defensores públicos, dos assistentes sociais. Nossa ética ficou toda guardada nos livros, na academia.
Isso aumentou a pena das meninas. E teve mais: reinauguraram um presídio em Campina Grande, para onde as levaram. Colocaram lá uma profi ssional para dirigi-las e, um ou dois meses depois, foi constatado que estava havendo abuso e violência.
lém de terem sido afastadas, a nova gestão teve problemas de violência institucional. E a nossa responsabilidade como profi ssionais? A professora muito bem coloca a questão do trabalho de um psicólogo, do papel da Psicologia, refletindo essa questão penal o Brasil.
Que sistema penitenciário é esse, que faz com que fi quemos aprisionados? Até a sala dos psicólogos era cheia de poeira, suja. A sensação deles era a de estar presos.
A saúde do trabalhador, nessa área do sistema penitenciário, é uma questão muito séria. Esse processo de aprisionamento é tão sério que eles vão começando a naturalizar qualquer prática de violência e ninguém vê a violência que lá acontece. Não tem a ver conosco a violência. É problema dos que botam a mão.
É do agente penitenciário que se corrompe e fica no processo do comércio ilegal dentro da prisão. Nós lavamos as mãos, porque não tem nada a ver conosco.
Não queremos ver e nos distanciamos, ficando nas nossas salas. Não vamos à cela, não entramos lá para não nos sujar, e fazemos de conta que não está acontecendo nada. Quando há rebelião, nós nos afastamos e corremos, antes que aconteça algo conosco. Essa é uma questão séria.
Temos que pensar qual é essa Psicologia. Como cuidar desses profissionais? Como trazê-los a nós, para que possamos fazer com que encontrem nos Conselhos e na academia um espaço em que possam se recuperar? O que senti, nessa prática, é que os nossos psicólogos também estavam desumanizados. A essência de humanidade dessas pessoas estava totalmente desmontada. Então, professora, eu fico me questionando. A senhora falou da formação que devemos pensar em construir. Quando falarmos em direitos humanos para esses profissionais, que comecemos com o processo de humanização. Não podemos chegar para esses profissionais
apenas com a lei, apenas com a versão jurídica. Temos que pensar as dimensões, as mais amplas possíveis, para fazer com que esses profi ssionais da Psicologia possam recuperar esse seu elemento de humanidade e de cidadania, porque, se não, eles não vão agir como protagonistas, não vão se sentir como sujeitos de direitos, eles não vão atuar como cidadãos, nem como atores institucionais que vão pensar em construir uma outra política de segurança e de justiça para esse país, porque estão apenas reproduzindo um tipo de modelo que a senhora muito bem colocou, ou seja, tudo voltado para a punição e nada voltado para a reeducação ou um processo de reabilitação ou de direitos humanos. Senti na pele que, ao tratar do tema dos direitos humanos, se não formos com um trabalho de vivência, de um processo demorado que vai limpando e cuidando, as pessoas ainda estão muito impregnadas dessa questão da penalização, de ver o preso não como um sujeito de direitos.
Que sistema penitenciário é esse, que faz com que fi quemos aprisionados? Até a sala dos psicólogos era cheia de poeira, suja. A sensação deles era a de estar presos.
A saúde do trabalhador, nessa área do sistema penitenciário, é uma questão muito séria. Esse processo de aprisionamento é tão sério que eles vão começando a naturalizar qualquer prática de violência e ninguém vê a violência que lá acontece. Não tem a ver conosco a violência. É problema dos que botam a mão.
É do agente penitenciário que se corrompe e fica no processo do comércio ilegal dentro da prisão. Nós lavamos as mãos, porque não tem nada a ver conosco.
Não queremos ver e nos distanciamos, ficando nas nossas salas. Não vamos à cela, não entramos lá para não nos sujar, e fazemos de conta que não está acontecendo nada. Quando há rebelião, nós nos afastamos e corremos, antes que aconteça algo conosco. Essa é uma questão séria.
Temos que pensar qual é essa Psicologia. Como cuidar desses profissionais? Como trazê-los a nós, para que possamos fazer com que encontrem nos Conselhos e na academia um espaço em que possam se recuperar? O que senti, nessa prática, é que os nossos psicólogos também estavam desumanizados. A essência de humanidade dessas pessoas estava totalmente desmontada. Então, professora, eu fico me questionando. A senhora falou da formação que devemos pensar em construir. Quando falarmos em direitos humanos para esses profissionais, que comecemos com o processo de humanização. Não podemos chegar para esses profissionais
apenas com a lei, apenas com a versão jurídica. Temos que pensar as dimensões, as mais amplas possíveis, para fazer com que esses profi ssionais da Psicologia possam recuperar esse seu elemento de humanidade e de cidadania, porque, se não, eles não vão agir como protagonistas, não vão se sentir como sujeitos de direitos, eles não vão atuar como cidadãos, nem como atores institucionais que vão pensar em construir uma outra política de segurança e de justiça para esse país, porque estão apenas reproduzindo um tipo de modelo que a senhora muito bem colocou, ou seja, tudo voltado para a punição e nada voltado para a reeducação ou um processo de reabilitação ou de direitos humanos. Senti na pele que, ao tratar do tema dos direitos humanos, se não formos com um trabalho de vivência, de um processo demorado que vai limpando e cuidando, as pessoas ainda estão muito impregnadas dessa questão da penalização, de ver o preso não como um sujeito de direitos.
Outra coisa que observei entre os profissionais é uma postura de rivalidade. Eles não se percebem como atores de uma construção de política pública. Cada um vê o seu pedaço.
Chega ao absurdo de os laudos serem colocados para os presos. A rivalidade entre os profissionais chega ao ponto de mostrar para os presos o laudo de outro profissional. Estão degradadas as relações institucionais. Um nível de competitividade e de degradação cuidou das mentes e dos corações e fez com que as pessoas se desmontassem como pessoas e como sujeitos, como atores institucionais. Elas não se vêem como construtoras de uma política pública.
Outra questão que a professora colocou, que considero fundamental, é a questão da militarização da segurança pública. Se percebermos, professora, a maioria dos dirigentes do sistema penitenciário - aqui na Paraíba vivemos muito isso - tem formação militar. Ora, sabemos que há defensores públicos, advogados, assistentes sociais e psicólogos com experiência de gestão na área de segurança. Esses profissionais nunca foram olhados, para serem colaboradores no processo de gestão. Colocam militares. Quando os conselhos de defesa começam a fazer o controle externo, de averiguar quando há abuso e denúncia de violência e de violação, ficamos nos portões. Quando há, de fato, uma violência, conseguem encobrir. Passamos um tempo fora dos portões, até usarmos o recurso jurídico para a entrada. Então, vemos uma grande contradição. Avança-se no processo de democratização, por um lado e em algumas questões, mas os órgãos que poderiam exercer o controle social ainda fi cam nos portões dos presídios, na hora em que precisam exercer a sua função de fi scalização do Estado na questão da violência institucional. Quando estive no Conselho Estadual, perguntei: “como entrar nesse campo das instituições”? Se só chegamos na hora da denúncia, eles não nos deixam entrar. Por exemplo, a Anistia Internacional publicou o livro sobre os maus-tratos. Nesse mesmo período estávamos fazendo um trabalho com o sistema penitenciário. Aqui na Paraíba, houve um massacre.
Oito presos foram assassinados. Se não chamarmos a atuação do Ministério Público, articularmos- nos com os órgãos de defesa e pensarmos um conjunto de ações, a denúncia vai fortalecer as resistências. Se não fortalecemos esses profi ssionais dentro do sistema penitenciário, ortalecendo os conselhos de defesa e ampliando essa rede de defesa, com estudos, pesquisas, dados e refl exões, o poder de intervenção é muito pequeno. Uma coisa interessante é
que eles odeiam a pastoral carcerária, mas é a pastoral carcerária que está nos presídios todas as semanas. É a única que está todas as semanas nos presídios, e é a única que está, de fato, olhando e ouvindo. É a única que escuta a voz dos presos. Por que incomoda tanto? Porque no sistema penitenciário ninguém quer uma política de trabalho. Não há uma política de trabalho lá dentro, assim como não há política de educação. No entanto, há um rede de comércio ilegal e muitas vezes devendo a presos. A relação é tão deformada que se inverte qualquer relação de autoridade e o processo de pensar essas instituições como um processo de uma intervenção de política pública com respeito e com dignidade.
Temos muito o que discutir na questão penitenciária. Na questão da militarização da segurança pública, uma das coisas que observamos é que ainda não conseguimos aproximar a mídia, no sentido de que ela esteja nos nossos seminários, nas nossas pesquisas e nas nossas intervenções, para que tenha uma postura mais bem formada da questão. Na questão do adolescente em conflito com a lei, apesar do que o Conanda tem feito aqui na Paraíba, precisamos da capacitação da mídia. A própria mídia está despreparada com relação ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Muita vezes, quando vêm as ondas de retomar a discussão da responsabilidade penal, temos que ter uma interlocução com a mídia, para a produção de profi ssionais da mídia que possam construir, conosco, um olhar crítico. Temos que pensar que o protagonismo tem que ser aliado a uma rede de outros profi ssionais. A comunicação também tem que entrar conosco nesse processo. Temos que pensar nessa articulação com a comunicação, não só naquele momento da denúncia, mas também prepará-los antes. Vemos que até a forma de escrever as matérias reproduz um tipo de discurso penalista. Vemos a fragilidade da relação com a comunicação. Na questão da segurança pública, vemos que todo mundo sente pena quando acontece uma violência que atinge a classe média ou os setores mais privilegiados economicamente. Os meios de comunicação vendem bastante nesse período. Eles utilizam a questão da segurança e da insegurança como mercadoria. Vemos como é forte essa utilização da insegurança, do terror. A formação de uma subjetividade em segurança é tamanha que começamos - vejo muito isso na universidade - a pagar guardas, porque, se não pagarmos, vamos ser assaltados. Não conseguimos discutir política de segurança pública e entramos na onda do comércio da segurança. Todos estamos pagando segurança privada, quando não discutimos a segurança pública numa perspectiva comunitária, de uma política pública de segurança que discuta a questão do conselho de segurança e modelos de ação preventiva. Que não separemos a questão das segurança da questão da educação, da saúde, do trânsito.
Por que faltam recursos? Se formos ver o orçamento utilizado nas seguranças privadas, perguntaríamos por que não há orçamento para a segurança pública. Quando tem orçamento, é para armar homens, não é para qualifi car ou implantar polícia comunitária, não é para formar uma rede alternativa. A sociedade está um pouco refém disso, quando só atua na hora da confusão. Quando tem um caso absurdo, fi camos na postura de vítima, que é muito passiva. Só atuamos na hora da caminhada pela paz. Vamos todos para a rua. Enchemos as ruas com caminhadas pela paz. Não discutimos mais a atuação da delegacia no bairro, não discutimos a atuação da delegacia da criança e do adolescente, não discutimos a política de segurança pública que queremos. Se o Conselho de Comunicação Social é um dos mais atrasados, imaginem o Conselho de Segurança. Como discutir segurança em política pública? Até pouco tempo atrás era questão de polícia. Temos que discutir como democratizar a política de segurança. Temos que construir política de segurança, se não quisermos fi car reféns da privatização da segurança pública. Aqui em João Pessoa tem bairro em que, às sete horas da noite, as pessoas já não podem mais voltar para casa. Fizemos um curso de polícia comunitária e, para o pessoal do bairro poder voltar para casa, tivemos que dar toda a segurança. Caso contrário, as pessoas não poderiam fazer parte do curso. Vou citar duas experiências, para vocês verem como a questão da militarização acontece. Houve uma caminhada pela paz, com jovens da escola. Quando chegamos a um determinado setor da rua, nós nos deparamos com a segurança privada. Os jovens, irreverentes, iam na frente e os pais e os professores, atrás. Era uma caminhada bastante longa e os jovens foram na frente. “Corram porque o pessoal da segurança privada está agredindo os meninos.” De repente, estava lá, a polícia militar, ao lado da bendita segurança privada, tomando conta do relógio da Globo. Foi nessa justificativa de não quebrar o relógio que tentaram agredir as crianças e os jovens. Nesse momento, a escola pôde chamar a polícia para discutir essa questão de, nas caminhadas, convocar a polícia para nos proteger. Vejam só, a Globo convocou a segurança privada e a polícia militar para proteger o relógio.
Ainda estamos com aquela postura de convocar a polícia pública para nos proteger.
Numa comunidade aqui do bairro, as escolas fi zeram uma caminhada pela paz no trânsito.
Os empresários convocaram a polícia para cuidar dos ônibus, porque disseram que os jovens iriam depredar os ônibus. Ora, era uma caminhada para as professoras discutirem a questão do trânsito, porque no bairro estava havendo muita violência no trânsito. Depararam-se com policiais fortemente armados enfrentando os jovens de escolas. Mais uma vez, não convocamos a polícia para nos proteger e para atuar conosco em uma caminhada, quando estamos querendo reivindicar políticas públicas. Quando falamos de uma experiência de polícia comunitária, de um trabalho de polícia interativa, de um trabalho de polícia discutindo com a escola, ou polícia com conselhos discutindo, começamos a reverter esse papel de militarização e começamos a fazer com que o policial passe a dialogar com os atores, com os educadores, com os jovens, com a associações de bairro. As pessoas não precisam ter medo da polícia. O pessoal de uma secretaria daqui disse que policial não poderia discutir com educadores e jovens, porque eram apenas para reprimir. Queremos que os nossos fi lhos tenham medo de polícia ou queremos reverter isso?
Queremos trazê-los para a cena, para a discussão da política pública, para as questões do bairro e das escolas! Eles não precisam provocar medo nos jovens. A professora disse que é preciso fazer essa leitura, e não fi car na posição de vítima, agindo na hora do caos. Precisamos atuar muito mais e pensar ações conjugadas com uma rede de atores sociais. Se não, não fazemos protagonismo e não conseguimos mudar o quadro. A sociedade reage naquele momento e faz a caminhada. Depois, temos dificuldades. Nessa questão da caminhada, foi possível juntar as escolas, os diretores de escola e o batalhão de polícia, para discutir qual é a atuação de cada um. A partir daí, o que podemos fazer para não ter mais essa postura? As empresas de segurança e as empresas comerciais utilizam a polícia para os interesses privados e nós, comunidade, escola, sociedade, não a utilizamos para nos proteger. Nós os deixamos hegemonicamente atuando, em função dos interesses privados. É momento também de pensar nisso daí.
Mais uma questão que a professora colocou que é importante - vou abrir os debates porque falo demais - é ter muito cuidado nesse momento histórico em que estamos vivendo. Não podemos pensar só nessa onda, antes das eleições, de tentar retomar a discussão da privatização, reforçar esse discurso, essa onda do tráfi co de drogas.
Até que ponto temos conhecimento dessa questão do tráfico e do crime organizado, para que não entremos no jogo do sensacionalismo e nesse engodo de chegarmos ao ponto de ter que justifi car uma ação de violação de direitos para poder justifi car a incompetência do Estado na questão do sistema penitenciário? Há quanto anos não se investe? Há quantos anos sabe-se o que acontece, ao juntar as pessoas numa mesma prisão? Há quanto tempo há tantos abusos e não se faz nada? O caos é a ausência do Estado nas políticas públicas. É isso que temos que discutir. Não podemos entrar nesse engodo, por conta dessa cultura do terror, que nos faz fi car inseguros, cada vez mais trancafi ados e trancafi ando nossos corações, nossas mentes e nossa capacidade de atuar como protagonistas sociais. Para provocar, eu gostaria que a Plenária levantasse questões para dialogarmos com a professora.
Chega ao absurdo de os laudos serem colocados para os presos. A rivalidade entre os profissionais chega ao ponto de mostrar para os presos o laudo de outro profissional. Estão degradadas as relações institucionais. Um nível de competitividade e de degradação cuidou das mentes e dos corações e fez com que as pessoas se desmontassem como pessoas e como sujeitos, como atores institucionais. Elas não se vêem como construtoras de uma política pública.
Outra questão que a professora colocou, que considero fundamental, é a questão da militarização da segurança pública. Se percebermos, professora, a maioria dos dirigentes do sistema penitenciário - aqui na Paraíba vivemos muito isso - tem formação militar. Ora, sabemos que há defensores públicos, advogados, assistentes sociais e psicólogos com experiência de gestão na área de segurança. Esses profissionais nunca foram olhados, para serem colaboradores no processo de gestão. Colocam militares. Quando os conselhos de defesa começam a fazer o controle externo, de averiguar quando há abuso e denúncia de violência e de violação, ficamos nos portões. Quando há, de fato, uma violência, conseguem encobrir. Passamos um tempo fora dos portões, até usarmos o recurso jurídico para a entrada. Então, vemos uma grande contradição. Avança-se no processo de democratização, por um lado e em algumas questões, mas os órgãos que poderiam exercer o controle social ainda fi cam nos portões dos presídios, na hora em que precisam exercer a sua função de fi scalização do Estado na questão da violência institucional. Quando estive no Conselho Estadual, perguntei: “como entrar nesse campo das instituições”? Se só chegamos na hora da denúncia, eles não nos deixam entrar. Por exemplo, a Anistia Internacional publicou o livro sobre os maus-tratos. Nesse mesmo período estávamos fazendo um trabalho com o sistema penitenciário. Aqui na Paraíba, houve um massacre.
Oito presos foram assassinados. Se não chamarmos a atuação do Ministério Público, articularmos- nos com os órgãos de defesa e pensarmos um conjunto de ações, a denúncia vai fortalecer as resistências. Se não fortalecemos esses profi ssionais dentro do sistema penitenciário, ortalecendo os conselhos de defesa e ampliando essa rede de defesa, com estudos, pesquisas, dados e refl exões, o poder de intervenção é muito pequeno. Uma coisa interessante é
que eles odeiam a pastoral carcerária, mas é a pastoral carcerária que está nos presídios todas as semanas. É a única que está todas as semanas nos presídios, e é a única que está, de fato, olhando e ouvindo. É a única que escuta a voz dos presos. Por que incomoda tanto? Porque no sistema penitenciário ninguém quer uma política de trabalho. Não há uma política de trabalho lá dentro, assim como não há política de educação. No entanto, há um rede de comércio ilegal e muitas vezes devendo a presos. A relação é tão deformada que se inverte qualquer relação de autoridade e o processo de pensar essas instituições como um processo de uma intervenção de política pública com respeito e com dignidade.
Temos muito o que discutir na questão penitenciária. Na questão da militarização da segurança pública, uma das coisas que observamos é que ainda não conseguimos aproximar a mídia, no sentido de que ela esteja nos nossos seminários, nas nossas pesquisas e nas nossas intervenções, para que tenha uma postura mais bem formada da questão. Na questão do adolescente em conflito com a lei, apesar do que o Conanda tem feito aqui na Paraíba, precisamos da capacitação da mídia. A própria mídia está despreparada com relação ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Muita vezes, quando vêm as ondas de retomar a discussão da responsabilidade penal, temos que ter uma interlocução com a mídia, para a produção de profi ssionais da mídia que possam construir, conosco, um olhar crítico. Temos que pensar que o protagonismo tem que ser aliado a uma rede de outros profi ssionais. A comunicação também tem que entrar conosco nesse processo. Temos que pensar nessa articulação com a comunicação, não só naquele momento da denúncia, mas também prepará-los antes. Vemos que até a forma de escrever as matérias reproduz um tipo de discurso penalista. Vemos a fragilidade da relação com a comunicação. Na questão da segurança pública, vemos que todo mundo sente pena quando acontece uma violência que atinge a classe média ou os setores mais privilegiados economicamente. Os meios de comunicação vendem bastante nesse período. Eles utilizam a questão da segurança e da insegurança como mercadoria. Vemos como é forte essa utilização da insegurança, do terror. A formação de uma subjetividade em segurança é tamanha que começamos - vejo muito isso na universidade - a pagar guardas, porque, se não pagarmos, vamos ser assaltados. Não conseguimos discutir política de segurança pública e entramos na onda do comércio da segurança. Todos estamos pagando segurança privada, quando não discutimos a segurança pública numa perspectiva comunitária, de uma política pública de segurança que discuta a questão do conselho de segurança e modelos de ação preventiva. Que não separemos a questão das segurança da questão da educação, da saúde, do trânsito.
Por que faltam recursos? Se formos ver o orçamento utilizado nas seguranças privadas, perguntaríamos por que não há orçamento para a segurança pública. Quando tem orçamento, é para armar homens, não é para qualifi car ou implantar polícia comunitária, não é para formar uma rede alternativa. A sociedade está um pouco refém disso, quando só atua na hora da confusão. Quando tem um caso absurdo, fi camos na postura de vítima, que é muito passiva. Só atuamos na hora da caminhada pela paz. Vamos todos para a rua. Enchemos as ruas com caminhadas pela paz. Não discutimos mais a atuação da delegacia no bairro, não discutimos a atuação da delegacia da criança e do adolescente, não discutimos a política de segurança pública que queremos. Se o Conselho de Comunicação Social é um dos mais atrasados, imaginem o Conselho de Segurança. Como discutir segurança em política pública? Até pouco tempo atrás era questão de polícia. Temos que discutir como democratizar a política de segurança. Temos que construir política de segurança, se não quisermos fi car reféns da privatização da segurança pública. Aqui em João Pessoa tem bairro em que, às sete horas da noite, as pessoas já não podem mais voltar para casa. Fizemos um curso de polícia comunitária e, para o pessoal do bairro poder voltar para casa, tivemos que dar toda a segurança. Caso contrário, as pessoas não poderiam fazer parte do curso. Vou citar duas experiências, para vocês verem como a questão da militarização acontece. Houve uma caminhada pela paz, com jovens da escola. Quando chegamos a um determinado setor da rua, nós nos deparamos com a segurança privada. Os jovens, irreverentes, iam na frente e os pais e os professores, atrás. Era uma caminhada bastante longa e os jovens foram na frente. “Corram porque o pessoal da segurança privada está agredindo os meninos.” De repente, estava lá, a polícia militar, ao lado da bendita segurança privada, tomando conta do relógio da Globo. Foi nessa justificativa de não quebrar o relógio que tentaram agredir as crianças e os jovens. Nesse momento, a escola pôde chamar a polícia para discutir essa questão de, nas caminhadas, convocar a polícia para nos proteger. Vejam só, a Globo convocou a segurança privada e a polícia militar para proteger o relógio.
Ainda estamos com aquela postura de convocar a polícia pública para nos proteger.
Numa comunidade aqui do bairro, as escolas fi zeram uma caminhada pela paz no trânsito.
Os empresários convocaram a polícia para cuidar dos ônibus, porque disseram que os jovens iriam depredar os ônibus. Ora, era uma caminhada para as professoras discutirem a questão do trânsito, porque no bairro estava havendo muita violência no trânsito. Depararam-se com policiais fortemente armados enfrentando os jovens de escolas. Mais uma vez, não convocamos a polícia para nos proteger e para atuar conosco em uma caminhada, quando estamos querendo reivindicar políticas públicas. Quando falamos de uma experiência de polícia comunitária, de um trabalho de polícia interativa, de um trabalho de polícia discutindo com a escola, ou polícia com conselhos discutindo, começamos a reverter esse papel de militarização e começamos a fazer com que o policial passe a dialogar com os atores, com os educadores, com os jovens, com a associações de bairro. As pessoas não precisam ter medo da polícia. O pessoal de uma secretaria daqui disse que policial não poderia discutir com educadores e jovens, porque eram apenas para reprimir. Queremos que os nossos fi lhos tenham medo de polícia ou queremos reverter isso?
Queremos trazê-los para a cena, para a discussão da política pública, para as questões do bairro e das escolas! Eles não precisam provocar medo nos jovens. A professora disse que é preciso fazer essa leitura, e não fi car na posição de vítima, agindo na hora do caos. Precisamos atuar muito mais e pensar ações conjugadas com uma rede de atores sociais. Se não, não fazemos protagonismo e não conseguimos mudar o quadro. A sociedade reage naquele momento e faz a caminhada. Depois, temos dificuldades. Nessa questão da caminhada, foi possível juntar as escolas, os diretores de escola e o batalhão de polícia, para discutir qual é a atuação de cada um. A partir daí, o que podemos fazer para não ter mais essa postura? As empresas de segurança e as empresas comerciais utilizam a polícia para os interesses privados e nós, comunidade, escola, sociedade, não a utilizamos para nos proteger. Nós os deixamos hegemonicamente atuando, em função dos interesses privados. É momento também de pensar nisso daí.
Mais uma questão que a professora colocou que é importante - vou abrir os debates porque falo demais - é ter muito cuidado nesse momento histórico em que estamos vivendo. Não podemos pensar só nessa onda, antes das eleições, de tentar retomar a discussão da privatização, reforçar esse discurso, essa onda do tráfi co de drogas.
Até que ponto temos conhecimento dessa questão do tráfico e do crime organizado, para que não entremos no jogo do sensacionalismo e nesse engodo de chegarmos ao ponto de ter que justifi car uma ação de violação de direitos para poder justifi car a incompetência do Estado na questão do sistema penitenciário? Há quanto anos não se investe? Há quantos anos sabe-se o que acontece, ao juntar as pessoas numa mesma prisão? Há quanto tempo há tantos abusos e não se faz nada? O caos é a ausência do Estado nas políticas públicas. É isso que temos que discutir. Não podemos entrar nesse engodo, por conta dessa cultura do terror, que nos faz fi car inseguros, cada vez mais trancafi ados e trancafi ando nossos corações, nossas mentes e nossa capacidade de atuar como protagonistas sociais. Para provocar, eu gostaria que a Plenária levantasse questões para dialogarmos com a professora.
Debates: Público
Pegando a chamada - da colega e amiga Nazaré, da necessidade de refletirmos sobre as nossas práticas cotidianas, na medida em que as reproduzimos, principalmente em Psicologia, vou aproveitar para uma restituição, a ela própria, e falar um pouco de como podemos nos espantar, pois a violação dos direitos humanos vem dos pontos mais inesperados.
Participávamos de um programa de educação na área de segurança pública e, muito preocupados em como entrar nas organizações policiais, fomos surpreendidos por uma atitude do gestor financeiro do programa. Quando questionado sobre a absoluta falta de transparência, reagiu pedindo o nosso afastamento. Graças aos companheiros da equipe de Sergipe e da Paraíba, com a professora Nazaré, foi mantido o espaço público democrático na condução do término do programa.
Aproveitando o espaço para restituição, isto é, para passar a proposta de uma pesquisa de um mote que possa orientar o protagonismo social da Psicologia relacionado com a questão dos direitos humanos. Acho que talvez possamos procurar exatamente na naturalização do individualismo. A Psicologia tem sido efi cientíssima em produzir conhecimentos sobre os indivíduos. Talvez uma postura de reexistir como campo de saber em Psicologia, que possa atualizar a potência dos direitos humanos, seja esse indicativo firme, em nos negarmos a produzir conhecimento sobre os indivíduos e nos empenharmos em produzir conhecimento sobre o modo de funcionamento das instituições que articulam esse controle e essa disciplinarização.
Para começarmos, talvez um bate-papo, vou fi car esperando a resposta da Cecília, que talvez não mude. Para finalizar, ilustro o ponto a que estão chegando os mecanismos de controle.
Noutro dia, a imprensa estava comemorando a utilização do sistema GPS, sistema de localização por satélite, individual.
No início, para proteger do seqüestro quem possa pagar. Aos poucos, financiando o barateamento dessa tecnologia, para controlar, pelo sistema GPS de satélite, aqueles que poderão ser os perigosos.
Obrigado.
Participávamos de um programa de educação na área de segurança pública e, muito preocupados em como entrar nas organizações policiais, fomos surpreendidos por uma atitude do gestor financeiro do programa. Quando questionado sobre a absoluta falta de transparência, reagiu pedindo o nosso afastamento. Graças aos companheiros da equipe de Sergipe e da Paraíba, com a professora Nazaré, foi mantido o espaço público democrático na condução do término do programa.
Aproveitando o espaço para restituição, isto é, para passar a proposta de uma pesquisa de um mote que possa orientar o protagonismo social da Psicologia relacionado com a questão dos direitos humanos. Acho que talvez possamos procurar exatamente na naturalização do individualismo. A Psicologia tem sido efi cientíssima em produzir conhecimentos sobre os indivíduos. Talvez uma postura de reexistir como campo de saber em Psicologia, que possa atualizar a potência dos direitos humanos, seja esse indicativo firme, em nos negarmos a produzir conhecimento sobre os indivíduos e nos empenharmos em produzir conhecimento sobre o modo de funcionamento das instituições que articulam esse controle e essa disciplinarização.
Para começarmos, talvez um bate-papo, vou fi car esperando a resposta da Cecília, que talvez não mude. Para finalizar, ilustro o ponto a que estão chegando os mecanismos de controle.
Noutro dia, a imprensa estava comemorando a utilização do sistema GPS, sistema de localização por satélite, individual.
No início, para proteger do seqüestro quem possa pagar. Aos poucos, financiando o barateamento dessa tecnologia, para controlar, pelo sistema GPS de satélite, aqueles que poderão ser os perigosos.
Obrigado.
Cecília Maria Bouças Coimbra - Grupo Tortura Nunca Mais – RJ
É uma pena haver tão poucas pessoas. Devemos pensar não só o esvaziamento com relação à questão dos direitos humanos, mas também o fato de haver muita coisa junta.
Devemos pensar sobre isso no próximo encontro. Fechando, eu queria fazer algumas colocações muito rápidas sobre o que foi dito pela Nazaré. Achei algumas coisas muito interessantes e importantes. Logo no início, ela falou das pesquisas, das dissertações, das pesquisas, em como é importante a academia pensar sobre essas questões. O tempo todo essas questões, dentro da academia, são desqualifi cadas. Não é uma ciência. Isso é uma militância, é política. A ciência é uma coisa neutra, é uma coisa superior. Eu me lembrei de um trechinho do Foucault que abre exatamente para o nosso nível. Foucault, diz o seguinte, pensando essa questão: “Que tipo de saber vocês querem desqualifi car, no momento em que dizem que é uma ciência? Que sujeito falante, que sujeito de experiência ou de saber vocês querem minorar, quando dizem: eu formulo esse discurso, enuncio esses discurso porque sou cientista?” Eu acho que é isso que você está colocando. Não é por acaso que somos vistos como não fazendo Psicologia. Fazemos de tudo. Eu faço política, milito nisso e naquilo, mas não faço Psicologia. É uma questão para pensarmos. Que Psicologiaé essa? Que modelo é esse de Psicologia que querem que façamos?
Quando você fala das agentes penitenciárias que foram tomando uma série de medidas, inclusive arbitrárias, não permitindo banho de sol e tomando a sala dos técnicos, lembrei-me de um poema do Bertolt Brecht sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. Badaladíssimo esse poema do Brecht. “Uma vez vieram buscar os homossexuais. Como eu não era homossexual, eu nada fiz. Outra vez vieram buscar os comunistas. Como eu não era comunista, eu nada fiz. Outra vez vieram buscar os católicos. Como eu não era católico, eu nada fi z. Quando vieram me buscar, não havia mais ninguém.”
Devemos pensar sobre isso no próximo encontro. Fechando, eu queria fazer algumas colocações muito rápidas sobre o que foi dito pela Nazaré. Achei algumas coisas muito interessantes e importantes. Logo no início, ela falou das pesquisas, das dissertações, das pesquisas, em como é importante a academia pensar sobre essas questões. O tempo todo essas questões, dentro da academia, são desqualifi cadas. Não é uma ciência. Isso é uma militância, é política. A ciência é uma coisa neutra, é uma coisa superior. Eu me lembrei de um trechinho do Foucault que abre exatamente para o nosso nível. Foucault, diz o seguinte, pensando essa questão: “Que tipo de saber vocês querem desqualifi car, no momento em que dizem que é uma ciência? Que sujeito falante, que sujeito de experiência ou de saber vocês querem minorar, quando dizem: eu formulo esse discurso, enuncio esses discurso porque sou cientista?” Eu acho que é isso que você está colocando. Não é por acaso que somos vistos como não fazendo Psicologia. Fazemos de tudo. Eu faço política, milito nisso e naquilo, mas não faço Psicologia. É uma questão para pensarmos. Que Psicologiaé essa? Que modelo é esse de Psicologia que querem que façamos?
Quando você fala das agentes penitenciárias que foram tomando uma série de medidas, inclusive arbitrárias, não permitindo banho de sol e tomando a sala dos técnicos, lembrei-me de um poema do Bertolt Brecht sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. Badaladíssimo esse poema do Brecht. “Uma vez vieram buscar os homossexuais. Como eu não era homossexual, eu nada fiz. Outra vez vieram buscar os comunistas. Como eu não era comunista, eu nada fiz. Outra vez vieram buscar os católicos. Como eu não era católico, eu nada fi z. Quando vieram me buscar, não havia mais ninguém.”
Fazemos de conta que nada está acontecendo. Não é trabalho nosso. Sou psicólogo.
Nessa Psicologia que querem colocar como modelo, e está sendo colocada o tempo todo como modelo. Eu acho importante que estranhemos isso efetivamente. O relatório da Anistia Internacional sobre os maus-tratos nas prisões tem como subtítulo o seguinte: “Me tratam pior que um animal”. É a frase de um presidiário. Eles colocam como subtítulo do relatório da Anistia Internacional. Em cima da questão que você e o Manuel trouxeram, a questão da polícia é um negócio muito sério. Trazer a polícia até nós é fundamental, agora é fundamental pensarmos e questionarmos que tipo de formação é dada para esses policiais, especialmente os policiais militares. Que tipo de treinamento é dado a eles? Um aluno meu é soldado da PM, no Rio de Janeiro. “A primeira coisa que querem fazer com a gente, e que fazem, é tirar a nossa condição de cidadão civil. Somos militares.” É uma outra coisa “ser militar”!
É fundamental pensarmos no tipo de formação que eles têm. Algumas músicas, cantadas durante os treinamentos, são hinos ao extermínio: “Eu vou na favela, mato um. Chupo o sangue... Chupo o coração...” São impressionantes as músicas que a polícia militar do estado do Rio de Janeiro utiliza nos treinamentos, não só dos sol Temos que pensar na formação deles e neles como cidadãos. É a questão da segurança desse policial, tanto civil quanto militar, é a questão dos seus salários, pois não é por acaso que se paga tão pouco ao policial. São questões importantes a serem pensadas. É pena sermos sempre tão poucos a pensar sobre isso. Agradeço a vocês a presença e agradeço o convite. Vou deixar no Conselho um exemplar de cada livro que estou trazendo. Para a Comissão de Direitos Humanos fi cou apenas um. É esse aqui que laçamos no Rio, chamado “Clínica e Política”. Este aqui é do Tortura Nunca Mais. Cada um custa vinte reais.
Esse aqui, inclusive, tem o Protocolo de Istambul, totalmente traduzido. Ainda não havia tradução para o português. O Protocolo de Istambul é uma convenção internacional que trata de maus-tratos e tortura em estabelecimentos. Como denunciar a questão dos maustratos e da tortura em estabelecimentos? É o chamado Protocolo de Istambul. Pela primeira vez foi traduzido. Estou deixando um exemplar para o Conselho.
Nessa Psicologia que querem colocar como modelo, e está sendo colocada o tempo todo como modelo. Eu acho importante que estranhemos isso efetivamente. O relatório da Anistia Internacional sobre os maus-tratos nas prisões tem como subtítulo o seguinte: “Me tratam pior que um animal”. É a frase de um presidiário. Eles colocam como subtítulo do relatório da Anistia Internacional. Em cima da questão que você e o Manuel trouxeram, a questão da polícia é um negócio muito sério. Trazer a polícia até nós é fundamental, agora é fundamental pensarmos e questionarmos que tipo de formação é dada para esses policiais, especialmente os policiais militares. Que tipo de treinamento é dado a eles? Um aluno meu é soldado da PM, no Rio de Janeiro. “A primeira coisa que querem fazer com a gente, e que fazem, é tirar a nossa condição de cidadão civil. Somos militares.” É uma outra coisa “ser militar”!
É fundamental pensarmos no tipo de formação que eles têm. Algumas músicas, cantadas durante os treinamentos, são hinos ao extermínio: “Eu vou na favela, mato um. Chupo o sangue... Chupo o coração...” São impressionantes as músicas que a polícia militar do estado do Rio de Janeiro utiliza nos treinamentos, não só dos sol Temos que pensar na formação deles e neles como cidadãos. É a questão da segurança desse policial, tanto civil quanto militar, é a questão dos seus salários, pois não é por acaso que se paga tão pouco ao policial. São questões importantes a serem pensadas. É pena sermos sempre tão poucos a pensar sobre isso. Agradeço a vocês a presença e agradeço o convite. Vou deixar no Conselho um exemplar de cada livro que estou trazendo. Para a Comissão de Direitos Humanos fi cou apenas um. É esse aqui que laçamos no Rio, chamado “Clínica e Política”. Este aqui é do Tortura Nunca Mais. Cada um custa vinte reais.
Esse aqui, inclusive, tem o Protocolo de Istambul, totalmente traduzido. Ainda não havia tradução para o português. O Protocolo de Istambul é uma convenção internacional que trata de maus-tratos e tortura em estabelecimentos. Como denunciar a questão dos maustratos e da tortura em estabelecimentos? É o chamado Protocolo de Istambul. Pela primeira vez foi traduzido. Estou deixando um exemplar para o Conselho.
Muito obrigada
Maria de Nazaré Tavares Zenaide - Conselho Regional de Psicologia – 13ª Região
II Seminário de Psicologia e Políticas Públicas: Políticas Públicas, Psicologia e Protagonismo Socialda Psicologia na Defesa dos Direitos Humanos com que fiquemos inseridos nessas políticas públicas de forma refém, porque estamos atuando de uma forma limitada, uma determinada atuação. Precisamos aprofundar, na nossa categoria, nos conselhos e nas várias
instâncias que atuam com Psicologia, essa discussão sobre a segurança pública, para que possamos, de fato, ter uma inserção na perspectiva de mudança social. Gostaríamos, então, de encerrar o II Seminário de Psicologia e Políticas Públicas - Psicologia e Protagonismo Social.
Em nome do Conselho Federal de Psicologia e do Sistema Conselhos, agradeço a todos que colaboraram com este seminário e fizeram com que este momento fosse ímpar. Sabemos que é um espaço de discussão política que o Sistema Conselhos e o Conselho Federal fazem, para que possa haver uma inserção dos psicólogos nas políticas públicas. Este seminário trouxe oportunidades ímpares, pois trabalhamos diversas áreas: crianças e adolescente, comunicação, direitos humanos, segurança pública. Cada área dessas merece outros momentos de aprofundamento.
Que possamos fortalecer essa rede com os Conselhos e com a academia e que, no próximo seminário, possamos estar aqui, trazendo outras experiências e outras falas, numa perspectiva diferente, a fi m de construir um protagonismo efetivamente crítico e transformador para a nossa sociedade. Gostaríamos de convidar a todos para participarem do lançamento de alguns livros e assistirem à apresentação de Tiago Santos. Ele tem livros e vídeos, veio do Ceará especialmente para contribuir com o nosso congresso. Gostaríamos que todos pudessem prestigiálo. Que, nos próximos encontros possamos estar, cada vez mais, fortalecidos, para apresentarmos novas práticas da Psicologia.
Maria de Nazaré Tavares Zenaide - Conselho Regional de Psicologia – 13ª Região
II Seminário de Psicologia e Políticas Públicas: Políticas Públicas, Psicologia e Protagonismo Socialda Psicologia na Defesa dos Direitos Humanos com que fiquemos inseridos nessas políticas públicas de forma refém, porque estamos atuando de uma forma limitada, uma determinada atuação. Precisamos aprofundar, na nossa categoria, nos conselhos e nas várias
instâncias que atuam com Psicologia, essa discussão sobre a segurança pública, para que possamos, de fato, ter uma inserção na perspectiva de mudança social. Gostaríamos, então, de encerrar o II Seminário de Psicologia e Políticas Públicas - Psicologia e Protagonismo Social.
Em nome do Conselho Federal de Psicologia e do Sistema Conselhos, agradeço a todos que colaboraram com este seminário e fizeram com que este momento fosse ímpar. Sabemos que é um espaço de discussão política que o Sistema Conselhos e o Conselho Federal fazem, para que possa haver uma inserção dos psicólogos nas políticas públicas. Este seminário trouxe oportunidades ímpares, pois trabalhamos diversas áreas: crianças e adolescente, comunicação, direitos humanos, segurança pública. Cada área dessas merece outros momentos de aprofundamento.
Que possamos fortalecer essa rede com os Conselhos e com a academia e que, no próximo seminário, possamos estar aqui, trazendo outras experiências e outras falas, numa perspectiva diferente, a fi m de construir um protagonismo efetivamente crítico e transformador para a nossa sociedade. Gostaríamos de convidar a todos para participarem do lançamento de alguns livros e assistirem à apresentação de Tiago Santos. Ele tem livros e vídeos, veio do Ceará especialmente para contribuir com o nosso congresso. Gostaríamos que todos pudessem prestigiálo. Que, nos próximos encontros possamos estar, cada vez mais, fortalecidos, para apresentarmos novas práticas da Psicologia.
Boa-noite
Acredito ser este um texto bem interessante e profiundo para nossa reflexão!!!!!!
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